A pesquisa para a composição de nosso trabalho de doutorado na área de história
social tem por objetivo mostrar como a intervenção estatal no setor elétrico
paulista (1950/ 1998) provocou um crescimento em escala e de qualidade no próprio setor e na
economia; como esse modelo sustentou-se por quatro décadas, e que elementos estruturais forneceu
como base para a desestatização ou privatização do próprio setor em São
Paulo e por extensão no Brasil do final dos anos 1990.
O trabalho de pesquisa visa analisar as transformações da sociedade paulista com a chegada da
energia elétrica, independente da classe social, foi evidente a mudança no modo de vida da população.
O crescimento industrial veio a ser beneficiado com a produção de novos produtos decorrentes da eletricidade, possibilitando assim,
facilidades no modo de vida da população, inclusive na nova reordenação da planta residencial, simplificando assim os
espaços. Os cômodos passaram a exercer novas funções, o espaço da cozinha ficou menor, pois os
eletrodomésticos minimizaram o trabalho, assim como eliminaram espaços que antes eram usados para o beneficiamento de alimentos.
A informação veio também através da televisão e do rádio, possibilitando novos horizontes à
população mais afastada.
A cidade de São Paulo cresce de forma desordenada, pois quem reordena o espaço é a Light, empresa canadense oligopolista,
onde suas atividades se desenvolvem juntas, formando uma infra-estrutura na sua forma mais abrangente, valorizando assim as áreas nas quais
ela era proprietária. Esta quem vai dizer quais serão os usuários interessantes economicamente, no qual farão uso de suas
atividades, como energia elétrica, transportes coletivos, gás e telefone.
O modo de vida da população paulista vem a ser reflexo da política implantada pela Light, da forma e no tempo que ela quis,
como e quando, de acordo com o andamento dos seus negócios.
O objetivo do projeto é a realização de levantamento e análise dos critérios utilizados pelas
instituições para produzirem documentos de arquivo e os preservarem em caráter temporário ou permanente.
Serão utilizados os parâmetros teórico-metodológicos da avaliação documental, para análise das
condicionantes primárias dessa preservação: a legislação, as normas técnicas e as teorias aplicadas à
administração empresarial, além da cultura organizacional, que influencia significativamente a tomada de decisão
sobre a construção da memória das instituições.
Para ilustrar as condicionantes desse processo, pretendemos apresentar, como estudo de caso, a situação de três empresas
do setor energético que desenvolveram desde os primórdios de sua existência, estratégias de preservação
variadas, mais ou menos abrangentes.
Como material decorrente – resultado do levantamento de documentos necessário para a produção da pesquisa - pretendemos
elaborar um glossário de tipos documentais utilizados pelas empresas no desempenho de suas atividades.
A vida da sociedade brasileira de início do século XX foi marcada por profundas transformações.
O desenvolvimento tanto da economia cafeeira no sudeste como da borracha no norte do país permitiu a incorporação
de novas tecnologias e a expansão do processo de urbanização. Um dos aspectos mais visíveis da modernização
de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, entre tantas outras, foi o estabelecimento de energia elétrica para a
iluminação pública e doméstica, para a tração de bondes e, mais tarde, como fonte de energia para a
indústria.
Os conflitos empreendidos pela empresa canadense Light e a nacional Companhia Brasileira de Energia Elétrica no setor de serviços
públicos urbanos representam as contradições da formação do capitalismo brasileiro durante as primeiras
décadas do século XX. Esses conflitos são particularmente importantes por colocar em questão a disputa, de um lado,
do capital estrangeiro que vivia um momento imperialista de expansão, e de outro lado, o capital nacional que procurava se consolidar por meio
de empresas ligadas ao setor de serviços urbanos e produção industrial. A Light, em dez anos, tornou-se a principal empresa
nos serviços urbanos de importantes cidades. Enquanto isso, a Companhia Nacional de Energia Elétrica (CBEE), empresa controlada por
Eduardo Guinle, além da concessão do Porto de Santos e da representação no Brasil de empresas estrangeiras como a
produtora de materiais elétricos, General Electric, buscou concorrer com a empresa canadense na tentativa de expandir seus negócios
para os serviços de energia elétrica nas maiores cidades brasileiras, isso é, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.
A Light estabeleceu-se respectivamente em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador nos anos de 1899, 1904 e 1906. Empresa formada
inicialmente no Canadá e comandada em São Paulo e no Rio de Janeiro por Alexander Mackenzie e Fred Pearson e em Salvador por
Percival Farquhar, logo se tornou sinônimo de modernização ao introduzir ou ampliar consideravelmente os serviços de
iluminação e bondes elétricos. A empresa Light mais que um grande volume de recursos desenvolveu um amplo sistema de
alianças e relações com grupos políticos locais, o que facilitava a aquisição de concessões e
aprovação de termos favoráveis nos contratos com as municipalidades. Isso porque, neste período a
regulamentação federal sobre os serviços de eletricidade era insignificante e as decisões e contratos acabavam
por ser estabelecido entre empresas e Câmaras Municipais.
A Companhia Brasileira de Energia Elétrica (legalmente formada em 1909), por sua vez, passou a concorrer com a empresa canadense pelos
serviços urbanos ainda com a denominação de Guinle & Co. em 1906. Aproveitando o excedente de energia elétrica
produzido no Porto de Santos, os empresários brasileiros requereram autorização para fornecer energia elétrica por
menores preços do que aqueles oferecidos pela Light em São Paulo. Concomitantemente, solicitaram licença de funcionamento
nas capitais do estado do Rio de Janeiro e Bahia. Tendo a aprovação de funcionamento apenas em Salvador, dividindo o mercado com a
concorrente canadense, os empresários da Companhia Brasileira de Energia Elétrica iniciaram campanhas nos jornais e nas Câmaras
Municipais para denunciar o poder político e questionar o monopólio da empresa Light nos mercados de São Paulo e Rio de Janeiro.
Os embates entre as empresas foram alimentados até meados da década de 1910, refletindo resultados diferentes conforme a
relação entre empresários e políticos locais. A Light manteve seu monopólio nos mercados de São Paulo e
Rio de Janeiro, formando a Brazilian Traction Light and Power em 1913, enquanto a CBEE assumia o monopólio do mercado de Salvador.
O objetivo da pesquisa é reconstruir o histórico do conflito entre a Light e a Docas Companhia Brasileira de Energia Elétrica,
de forma a discutir a concorrência do fornecimento de energia elétrica para a cidade de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.
No limite, tal discussão pode apontar para os interesses e projetos defendido pelos grupos locais para a modernização das
cidades brasileiras no início do século XX. A pesquisa está sendo realizada com base numa pesquisa bibliografia e na pesquisa
em arquivos. Os materiais empíricos que estamos selecionando são, recortes de jornais, discursos de Câmara Municipal,
relatórios das empresas, do acervo da Eletropaulo, das Câmaras Municipais de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, e Arquivos
Estaduais.
Simpósio Eletromemória: História da Energia Elétrica em São Paulo. Inscreva-se.